Em 1571, aos 38 anos, Michel de Montaigne deixou a vida pública e se recolheu à torre do castelo da família, perto de Bordeaux, para ler e escrever. Ali inventou um gênero novo, o ensaio, e produziu uma das reflexões mais duradouras sobre julgamento, dúvida e autoconhecimento. Os Ensaios saíram em 1580 e nunca deixaram de ser lidos, influenciando de Shakespeare a Descartes. Reunimos aqui princípios da obra.
Pergunte-se: o que eu sei? “Que sais-je?” era o lema que Montaigne mandou gravar numa medalha. Todo julgamento honesto começa por reconhecer o tamanho da própria ignorância.
Desconfie primeiro de si. Montaigne registrava os próprios erros, contradições e mudanças de opinião, e publicava tudo. Examinar as falhas do próprio raciocínio lhe parecia mais útil do que apontar as dos outros.
Costume não é argumento. O que parece natural costuma ser apenas familiar. Montaigne estudava outros povos e outras épocas para testar quais das suas convicções eram razão e quais eram só hábito.
Leia para julgar, e não para acumular. Ele preferia entender pouca coisa bem a citar muita coisa mal. Uma cabeça bem-feita, para ele, valia mais que uma cabeça cheia.
Certeza demais é exame de menos. Montaigne viveu os conflitos civis e religiosos do seu tempo e notou um padrão: as maiores violências vinham de quem tinha mais convicção. A dúvida, para ele, era uma forma de prudência.
Ensaiar é tentar. O nome que deu aos textos, essais, significa tentativas. Escrever era testar o pensamento em movimento, sem obrigação de chegar a uma conclusão definitiva.
Você sabia
Montaigne falava latim antes do francês. O pai ordenou que ninguém na casa se dirigisse ao menino em outra língua, e até os criados aprenderam frases em latim. Anos depois, foi eleito prefeito de Bordeaux sem ter se candidatado: soube pela carta, enquanto viajava pela Itália, e só aceitou porque o rei insistiu. Cumpriu dois mandatos elogiados, reclamando o tempo todo.
“Saber de cor não é saber.” Michel de Montaigne
Luiza indica
Luiza Queiroz, head de Comunicação Estratégica do Grupo Turim, indica três caminhos para quem quiser se aprofundar no assunto.
In Our Time, BBC (podcast). O programa de Melvyn Bragg dedicou um episódio a Montaigne, com três especialistas de Oxford e Cambridge em 45 minutos de conversa.
Château de Montaigne, em Saint-Michel-de-Montaigne, França (visita). A torre onde os Ensaios nasceram é visitável, a uma hora de Bordeaux, e a biblioteca e as vigas gravadas com máximas seguem no lugar.
Como Viver, de Sarah Bakewell (livro). A melhor porta de entrada para Montaigne: uma vida contada em uma pergunta e vinte tentativas de resposta.

