Uma forma de olhar para o patrimônio de uma família divide-o em quatro capitais: o financeiro, o humano, o intelectual e o social. Cada um se constrói em um ritmo próprio, e é do conjunto que depende a continuidade do patrimônio, hoje e nas próximas gerações.
Capital financeiro. Os investimentos, as participações, os imóveis, as terras, os ativos no exterior. É o capital que se mede em números e o mais visível dos quatro. Gerido com responsabilidade e visão de longo prazo, sustenta as escolhas da família: a formação de cada um, a filantropia, os projetos que só se avaliam em décadas.
Capital humano. Quem as pessoas da família são: o bem-estar físico e emocional, os valores, a possibilidade de cada um encontrar um trabalho com significado. Constrói-se no primeiro emprego, na chance de errar enquanto o risco ainda é pequeno, e na saúde de cada geração, medida em anos de autonomia. É o capital que mais depende de investimento deliberado na formação de cada geração.
Capital intelectual. O que a família sabe: a formação de cada um, as experiências profissionais e artísticas, a capacidade de ensinar e aprender uns com os outros. Tem forma concreta no arquivo da família, nas cartas, nas fotografias, na biblioteca e no registro de como as decisões importantes foram tomadas e por quê. Costuma ficar menos organizado do que a carteira de investimentos.
Capital social. As relações da família, entre si e com o mundo. Aparece no conselho de família que se reúne com regularidade e registra o que decidiu, e no acordo sobre como se resolvem as questões que envolvem um bem comum. Está também na fundação que organiza as doações, na presença em conselhos de museus, hospitais e universidades, e nas pessoas de fora da família em quem ela confia para decidir. É o capital que mais demora a se formar.
A preocupação em organizar, proteger e transmitir patrimônio acompanha as famílias desde as primeiras civilizações: os escribas do Egito e da Babilônia na Antiguidade, o conselheiro do feudo na Idade Média, os Médici nos séculos XV e XVI, o Barão de Mauá no século XIX, o escritório dos Rockefeller em 1882 e os zaibatsu japoneses no século XX. No segundo episódio de Valores no Tempo, Arthur Mello e Luiza Queiroz percorrem essa história.
Existiria um quinto capital? O financeiro se administra. O humano, o intelectual e o social se constroem dentro da própria família, em formação, em conversa, em tempo junto. E há algo que sustenta os quatro, uma intenção compartilhada, maior que o interesse de cada um, que é a razão pela qual a família quer seguir sendo família. Alguns autores chamam de capital espiritual. Na Tori, chamamos de legado.
O trabalho da TORI começa no capital financeiro, para que as famílias tenham tempo e presença para cultivar os demais.
Bibliografia: Family Wealth, de James E. Hughes Jr.

